Culto à babaquice

Primeiramente, gostaria de dizer aos leitores uma boa nova: the bitch is back! Concluí meu artigo científico (quase, só faltam as considerações finais e a última palavra do orientador), abri a mão e comprei um computador decente (o meu andava temperamental), e agora posso me dedicar um pouco mais aos textos do blog. Gostaria de agradecer ao povo que continuou acessando na minha ausência e deixando comentários.

E para retornar, inspirada por uma gigantesca festa de música eletrônica que está acontecendo nas proximidades de minha humilde residência neste final de semana, vou escrever sobre o culto à babaquice.

Acho que desde que a humanidade existe, temos esta necessidade de cultuar. Começamos cultuando a natureza, fomos criando deuses relacionados a ela para cultuar, criamos imagens para eles, pintamos cavernas, pirâmides e esculpimos suas formas em argila e pedra.

Em um dado momento, passamos a cultuar os humanos que nos dominavam: reis, rainhas, imperadores, sacerdotes e afins. As pessoas se reuniam para vê-los passar, para beijar suas mãos, para pedir bençãos, para ter qualquer tipo de proximidade com aqueles que detinham o poder, que espelhavam aquilo que todos sonhavam ter sido, mas não tiveram a oportunidade de nascê-lo (a riqueza já foi restrita a quem nascia nobre).

O mundo deu voltas, o dinheiro e o poder foram se distribuindo e hoje vivemos em um mundo em que, ao menos teoricamente, qualquer um poderia se tornar rico ou famoso, seja pela sua habilidade futebolística, talento (cof cof!) musical e artístico, pela beleza, pela sorte de apostar os números certos na loteria, pelo espírito empreendedor e, porque não, pela habilidade de praticar golpes e falcatruas afins.

Continuamos cultuando estas pessoas, que se tornam um exemplo de sucesso, que conquistam aquilo que gostaríamos de ter conquistado. Especialmente cultuamos aquelas que ganham dinheiro e fama quase instantâneos, afinal, quem não gostaria de ficar rico da noite pro dia? Não só as cultuamos como as defendemos, compramos brigas por elas, xingamos quem não gosta de “feia, gorda, pobre e invejosa“, porque somos todos lindos, ricos e sarados.

E também passamos a cultuar coisas: marcas e modelos de carros, roupas, sapatos, bolsas, aparelhos eletrônicos (os adoradores dos aparelhinhos de Steve Jobs são praticamente uma seita), panelas, cosméticos e, até mesmo, marcas de pinças de tirar sobrancelha.

Como se não bastasse termos nos tornado um bando de babacas que idolatram objetos, ainda levamos nossa babaquice a níveis extremos, tendo desmaios em shows de cantor sertanejo, enfrentando hordas de fãs enlouquecidos para ficar na frente do palco, tirar uma foto com algum artista, acampando durante dias na fila de entrada de um show de cantor internacional ou lançamento de alguma coleção ou loja famosa. Até mesmo tatuamos a cara da Nana Gouvêa.

Isso quando não nos tornamos babacas agressivos, que arrancam cabelos (se não cuidar, pedaços) e peças de roupa de artistas, acotovelam a rival que escolheu a última peça-desejo da liquidação, furam a fila da entrada do show passando por cima dos mais fracos…

Dizemos que “precisamos” de uma bolsa Chanel para viver, colecionamos 300 pares de sapatos, “vamos morrer” se não formos naquela festa que “todo mundo vai”, e não estamos contentes enquanto não formos os mais bem sucedidos, mais bonitos, mais magros, mais sarados, que conhecem mais lugares, mais pessoas (que importam conhecer), que aparecem em mais fotos e frequentam mais eventos “exclusivos”, e que têm os namorados(as) mais “tudo isso” também…

Até entendo este fenômeno entre adolescentes – a confusão de hormônios deixa a gente meio sensível e meio fanático por certos ídolos, mas eu tenho me preocupado com essa “adolescentização” dos adultos. Ninguém quer envelhecer, ninguém quer se portar nem ter as responsabilidades de adultos, pessoas com mais de trinta anos na cara ainda ficam competindo entre si pra ver quem compra o melhor primeiro; ando sem paciência pra conviver com essa gente.

Vamos tentar ter uma relação mais normal e saudável com nossos ídolos e com coisas materiais? Vamos lembrar que um sapato é um sapato – ainda que seja um Louboutin -, que uma loja-nova-hypada-1a-a-abrir-no-Brasil vai continuar lá depois da inauguração, que um cantor/ator/jogador famoso é uma pessoa de carne e osso (e que também fica com gases depois de comer feijão com repolho)? Que não vamos morrer se esgotar o estoque daquela calça que a gente queria antes de podermos comprar, nem se não formos à festa que todo-mundo-vai porque estamos com preguiça? Vamos viver um pouco mais em função de momentos gostosos com aquelas pessoas que amamos e que estão próximas de nós, andar mais descalço e menos de salto, e postar menos foto de comida chique no Instagram?

Vamos ser um pouco mais livres e mais felizes? Embora o dinheiro facilite a vida de todo mundo, a felicidade não é feita essencialmente de coisas que podemos comprar…

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30 respostas em “Culto à babaquice

  1. Parece que o difícil na atualidade é convivermos com nossas falhas e faltas, buscamos uma perfeição que torna a vida artificial. Isso tudo me lembrou a música do Chico Buarque, A ciranda da bailarina:
    ‘Procurando bem / Todo mundo tem pereba / Marca de bexiga ou vacina / E tem piriri, tem lombriga, tem ameba / Só a bailarina que não tem / E não tem coceira / Verruga nem frieira
    Nem falta de maneira / Ela não tem…”

    A bailarina é tão perfeita que não se relaciona com o outro.

      • Sis, ontem mesmo eu li um texto muito interessante no blog da Cris Guerra sobre pessoas ricas de verdade descobrindo outras formas de ver o mundo: http://www.hojevouassim.com.br/page/2 . Tem muito a ver com esse aqui.
        Sempre me conformei em me achar a ET do pedaço porque não tinha “vontade de ter dinheiro para jogar fora em um cassino de Las Vegas” (usei esse exemplo porque participei de uma conversa dessa). Quem bom que está de volta. Adoro seus textos.

      • Renata, eu li este mesmo texto em um jornal e gostei também. Acho que as pessoas por aqui andam muito deslumbradas. O importante é mostrar pros outros o que se tem, onde se vai, com quem se anda… De forma alguma eu poderia viver dessa maneira, mas hoje vejo muitas pessoas criticarem esse posicionamento, achando que todo mundo quer ter uma vida de Lalá, Mariah ou Thássia. Longe de mim querer julgar se elas são felizes ou não, mas eu não sou do tipo “festeira”, tenho poucos e bons amigos e, na maior parte do tempo, gostaria de passar despercebida pois odeio pessoas comentando sobre mim ou minha vida por aí, ou dando opiniões não pedidas. E, não sei ao certo por qual motivo, isso sempre acontece, acabo sendo centro de atenções que não queria ser, ouvindo opiniões que não queria ouvir… rs.
        E as pessoas pensam que isso é coisa de “pobre, feio e invejoso”, né? Eu tenho condições de frequentar os lugares que a high society do meu estado frequenta, mas não vou porque eles estão lá! hahahahaha! E também porque viveria de aparência (como muitos), afinal eu vivo bem, mas não sou rica.
        E claro que eu adoraria ter mais dinheiro, resolveria muita coisa pra mim, eu poderia me divertir mais e trabalhar menos, rs, mas certamente meu conceito de diversão é bem diferente de frequentar festas badaladas, virar webcelebridade e escancarar a vida nas redes sociais…

      • ” Longe de mim querer julgar se elas são felizes ou não, mas eu não sou do tipo “festeira”, tenho poucos e bons amigos e, na maior parte do tempo, gostaria de passar despercebida pois odeio pessoas comentando sobre mim ou minha vida por aí, ou dando opiniões não pedidas. E, não sei ao certo por qual motivo, isso sempre acontece”
        Nossa, vc me descreveu aí. Eu bem queria ter mais grana, pra trabalhar menos, viajar mais, fazer uns cursos que me interessam, enfim, fazer o que se gosta, não o que é necessário. Mas ser famosa? No way. E vc não sabe porque as pessoas se interessam pela sua vida? É simples: porque vc não faz questão de mostrá-la. Isso gera um certo mistério, “o que será que ela esconde?” Os brasileiros em geral não são reservados, nem se conformam com gente que é. Ficam achando que a pessoa é metida, arrogante, ou que esconde segredos, apenas por não ficar se exibindo e dando brecha. E nada é mais atraente que um mistério. É justamente quem não pede opinião nem dá satisfação que mais gera esse tipo de conduta nos outros.

      • É, acho que as pessoas não se conformam muito que outras pessoas não tenham a necessidade de expor toda a sua vida a estranhos, a semi-conhecidos e afins. Eu já acho que nem minha família e amigos têm que saber tudo da minha vida, quanto mais pessoas que a gente convive e mal conhece. E essas são sempre as que mais ficam cobrando que a gente faça ou deixe de fazer as coisas, como se a opinião delas fizesse alguma diferença. Acho que é isso, elas querem se sentir importantes e valorizadas, ter “discípulos” que sigam seus conselhos, aquela gente que quer que os outros façam aquilo que elas não souberam fazer…

  2. Nem sei se poderia acrescentar algo a esse texto inspirado. Só me ocorre agora citar a disputinha ridícula que toma conta do Facebook, sobre quem tem mais “amigos” (francamente, dá pra chamar de amigo alguém que só viu de passagem uma vez na vida?), viaja mais, vai em mais restaurantes “da moda” (a maldição do Foursquare). Uma necessidade absurda de demonstrar um pretenso sucesso, de esfregar na cara do mundo o quanto se é lindo, rico, descolado, popular e feliz. Até parece….Não sou a favor de chorar miséria na internet, mas esse exibicionismo é muito babaca.

  3. Adorei o texto! A pouco venho acompanhando seu blog. Você se expressa muito bem. Usa as palavras de maneira simples e clara. Eu adoro isso. Sua maneira de escrever é como seu texto: tem gente que acha que se o texto tiver um punhado de palavras difíceis está bem escrito, mas se procurarmos o conteúdo… Esses ” ‘babacas’ idolatradores de coisas” também são assim. Pensam que se tiverem muitas coisas e muito dinheiro teram uma vida feliz. Fico espantada com isso. Uma vida feita apenas de consumismo e ganancia é como um texto que SÓ tem palavras rebuscadas. Não serve para nada, não transmite ideias, não acrescenta nada. Não há problema nas palavras rebuscadas, mas elas não podem ser o centro do texto. Ele deve ser cheio DE CONTEÚDO, assim como a vida deve ser cheia de momentos.

    • Obrigada, Rayanna, acho que escrever é isso, é transmitir informação de forma acessível, e quanto mais clareza, maior o público atingido, né? Que bom que gostou do blog!

  4. Ah nem me fala da seita Applelística. De todos os efeitos, eu francamente consigo considerá-los os piores.

    Eu estudava de bolsa num colégio acima das capacidades salariais dos meus pais. Atrás de mim sempre sentou pessoas da seita da Apple. Certa vez, numa aula, eu puxei o celular do bolso [um Corby. É, eu ainda tenho hhahahahah] e o pessoal que sentava atrás de mim ficou realmente surpreso. Me perguntaram o pq de eu não trocar, que a versão mais atualizada do Corby era melhor e tava custando praticamente o mesmo preço da época de lançamento do Corby velho. Os mais fanáticos mandaram eu comprar logo um Iphone.

    Na época eu era muito nova [eu deveria estar na oitava série ou no primeiro colegial] e muito ingênua, então só respondi “Mas ele me serve bem. Ele chama, manda mensagens, toca músicas e mostra as horas. E está funcionando muito bem, não tenho porque trocar…”

    Eu acho que isso despertou alguma raiva, não sei, mas até o final do ano [quando eu finalmente coloquei um basta na história], eu era conhecida como a pobre da sala. Não é que a simplicidade me chateasse, mas eu me sentia hostilizada ali. Aí no final do ano eu encurralei cada fanático da Apple num canto da escola e dei uma surra e finalmente ganhei respeito [e fama de ser uma “Mina da favela”, apesar de não ter pego tanto, pq, veja só, eu era loira de olhos claros! Como uma pessoa da favela pode nascer loira de olhos claros? Favela só tem preto! ¬¬]

    Até hoje eu tenho um desgosto particular pela Apple. Sei que não é só ela, mas essa empresa me mostrou na pele o que é ser moldado pelo consumo.

  5. Hoje estava em um shopping e me deparei com o lançamento do coleção da Mixed para a C&A. Entrei na loja e fiquei praticamente 1h observando. Achei as cenas que vi muito interessantes. Varias mulheres se debatendo, se unhando só para comprar um peça, ou mesmo para nao deixar que outra comprasse.
    Ao final fiquei um pouco parada em frente ao caixa e vi pessoas que provavelmente nunca gastaram mais de R$ 50,00 na loja pagando uma conta de R$ 1.100,00!
    Que sociedade é essa que vivemos? #medo
    Bj

      • Sis, não conta pra elas, senão vão ficar deprimidas de novo!!!
        Bem, eu já comprei a Cris Barros da Riachuelo, não por causa da marca, mas sim pelo modelo da camisa que gostei muito, tipo cargo, aquele estilo da estilista. Mas a camisa furou no 2º mês de uso… “quando uma camisa da Cris Barros vai furar?”, foi o que eu pensei na época..Mas não sou iludida com marcar, inclusive, comprar na Riachuelo, só quando é pra criança que cresce e a roupa não passa de 3 meses, ou quando está na 3ª etiqueta vermelha, preço bem ridículo mesmo.

  6. UFAA! Acabei de encontrar e de pirar de emoção com seu blog! São textos como os seus que conseguem reacender minhas esperanças em relação à salvação da humanidade…Hoje em dia parece que está todo mundo emburrecido, não sei se é culpa do Facebook, do Instagram, ou da Internet como um todo…Parece que todo mundo virou uma imagem virtual; as pessoas VIVEM para criar APARÊNCIAS e, sim; como você mesma colocou: vivem para idolatrar COISAS!! Confesso que sigo dois blogs de “moda”, mas isso somente porque não tenho conhecimento algum e preciso de certas dicas, mas também confesso que fico constantemente irritada com a futilidade das garotas que acessam e, mais ainda, com a superficialidade das próprias blogueiras. Enfim; vou continuar acompanhando seus textos para aliviar minha consciência! Bjos e obrigada pelo raio de lucidez!

  7. Olá. Descobri seu blog por acaso e acabei lendo quase todos seus textos! Muito bons, construtivos, assuntos super importantes para acordar as pessoas para a realidade. É ótimo ver alguém escrevendo sobre esta parte da moda que não se ve nos blogs, permitindo uma visão mais pé no chão das coisas (de pelo menos quem se interessa)! Difícil ver isso na web nos dias de hoje, apesar de acompanhar alguns blogs, concordo muito com você. Achei muito bacana, está de parabéns!

  8. Adorei seu texto! Ando tendo coincidências literárias, pois ainda hoje li dois textos que falam sobre a superficialidade dos relacionamentos e esse seu, sobre como as pessoas hoje em dia gostam de mostrar para os outros. Acho que hoje as pessoas precisam ser aceitas assim: com a foto mais curtida. Com a roupa do momento. As vezes paro pra pensar e dá medo de tudo isso! Principalmente, medo de onde iremos chegar numa sociedade que preza tanto o ter e pouco o ser.

    Belo texto! Tô lendo vários aqui do seu blog agora! Rs

    Abraço!

  9. Estou chocada como você conseguiu resumir tão bem essa “adolescentização” dos adultos. Além de todos esses argumentos, queria destacar que a maioria que posta no Facebook, Twitter, Instagram etc está sempre feliz, cercada de amigos, linda (nada como uma maquiagem, um melhor ângulo, uma boa iluminação ou até mesmo o Photoshop!), em lugares maravilhosos e bla-bla-bla.
    Às vezes chego até a pensar que só eu sinto cólicas, acordo descabelada e tenho olheiras… rss
    Confesso que prefiro continuar sendo chamada de “excluída digitalmente” e “fora de moda” do que ser obrigada a ver esse narcisismo todo… rs
    Parabéns pelo blog!
    bjos,
    Thaís.

  10. Que bom, finalmente achei um blog que vou acompanhar, já li a maioria dos teus textos e amei. Você escreve exatamente o que eu penso.

    Ótimo texto, realmente, não tenho mais paciência pra gente assim, que não falar de outra coisa que não seja roupa, balada, carro e derivados.
    E como você disse num comentário, é claro que ter mais dinheiro facilitaria a vida, mas não pra aparecer, e sim pra poder fazer as coisas que gosta, trabalhar menos, poder viajar.
    Me identifiquei muito com seu blog, parabéns.

  11. Olha só… mais um que se utiliza da fama midiática, e mais um babaca que lê e responde a outro babaca, segundo o que você diz, no seu texto…

  12. Estou encantada com seu blog, com seus pensamentos veiculados em seus textos tão bem escritos… parabéns, parabéns! Estou aguardando novas publicações! (Estava mais do que saturada com tantos looks do dia… rss)

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